Com a paciência típica de alguém com experiência e a altivez de uma Mulher que sabe o que quer, iniciou a conversa comentando sobre livros e filmes. Uma Mulher com muitas reflexões, críticas e conhecimento. Contou-me sobre leituras realizadas, indicou-me livros e enfim, relatou algumas crenças. Dentre elas: "(...) a violência é parte da ancestralidade humana", diz a senhora altiva. Essa compreensão, é análoga a compreensão de violência pela etologia, área da biologia que estuda o comportamento animal buscando compreender como ele evoluiu e como os mecanismos fisiológicos influenciam nesse processo. Nessa linha, é afirmado que o comportamento do homem é semelhante aos animais sendo o comportamento agressivo, inato ao mesmo. Sendo assim, essa “agressividade intraespecífica” é necessária à preservação da espécie, tão natural e irresistível quanto, por exemplo, a fome e o instinto sexual. Conforme essa linha de pensamento, soma-se a agressividade “natural” do homem o contexto atual da sociedade tecnológica, que acirra a agressividade entre os homens. Assim, com o advento dos fatores sócio-culturais e simbólicos, esse instinto acentua-se pondo em risco a própria espécie. Os estudiosos dessa linha de pensamento, transferem para a análise do social, de forma linear, os conhecimentos sobre a agressividade animal, partilhando da crença na “instintiva agressividade humana” subordinam, os componentes da atividade humana aos instintos biológicos.
A afirmação daquela Mulher, era no minímo provocativa para alguém com a convicação de que a violência é produto da desigualdade de classe, gênero e etnia/raça, sendo atravessada por multiplos fatores, onde a conjunção dialética do social e do biológico são condições necessários ao desenvolvimento dos seres. Ela explanou sobre violência, comparando as disputas dos seres humanos com as disputas realizadas pelos animais. Trouxe a tona os estupros coletivos praticados, ao longo da história, como forma de imposição do poder e expropriação de terras, contou sobre a sua própria vida, onde seu companheiro abusou sexualmente da sua filha, por anos a fio, sem que ela desconfiasse. Argmentou que aquele ato violento não foi patricado pelo pai, pelo companheiro mas, pelo animal institivo que caracteriza os seres humanos, e por sua vez, constituia aquele homem. Essa compreenssão moldava, segundo ela, a ancestralidade humana. Aquela conversa levou-me, a reflexão sobre a história de vida das Mulheres da minha família, todas, de alguma forma, marcadas pela violência. O abandono, a violência psicológica, o abuso sexual, as traições eram presentes na trajetória daquelas Mulheres, tido como uma herança "natural" das relações.
Cresci vendo o afiar de uma faca, como ameaça contra a minha mãe e a todos nós, que constituimos aquela família. Cresci compreendendo que família é também, espaço de consentimento da violência. Logo, era muito cruel, para mim, acreditar que a violência seria parte natural da constituição humana. Ao mesmo tempo, aquela Mulher me provocava a pensar sobre a reprodução da violência pelas Mulheres e questionava quem mantinha aquele padrão violento nas famílias. Contou-me sobre um filme onde, um homem de uma família em situação de violência, terminava sempre afirmando "Nós erramos e nós nos perdoamos, não se intrometa!". E a par disso, concluiu, "não adianta nos opormos, as relações são um contrato (...) é muito dificil quebrar o ciclo da violência". Resignada finalizou relatando que havia realizado tratamento psicológico, junto a sua filha, por algum tempo, buscando curar a ferida da violência sofrida.
Enfim, aquela conversa me aproximou, novamente, com o desejo pela troca, sincera, entre Mulheres. A conversa surgiu e fluiu com muita natualidade e ao final ela disse, "(...) não me importo mais com que os outros pensam, falo que tenho vontade de falar". Concluímos juntas, que essa é uma das formas de libertação necessária as Mulheres. Num processo contraditório entre pensar, expressar o que pensa e a construção ideológica da violência, aquela Mulher, assim como outras tantas Mulheres, seguia justificando a violência, que havia destruido a sua família, como parte "natural" do instinto humano. Muito provavelmente, como parte de um esforço consciente para lidar com a violência e digeri-la. Tal como aquela Mulher, muitas Marias têm suas vida cortadas, e saudosas, buscam o pai do seu filho e o seu companheiro em meio a violência. É preciso refletir sobre...
https://www.youtube.com/watch?v=CnWMlonw77w
LORENZ, Konrad. A agressão, uma história natural do mal. 2ªed. Lisboa, Editora: Moraes, 1979.
SAFFIOTI,Heleieth Iara B. Ontogênese e filogênese do gênero: ordem patriarcal de gênero e a violência masculina contra mulheres. Série Estudos e Ensaios, FLACSO-Brasil: Julho de 2009. In: http://www.direito.mppr.mp.br/arquivos/File/Heleieth_Saffioti.pdf.